Em geral, nossas ações são orientadas pela maneira como enxergamos o mundo e a vida. Somos mais influenciados do que conseguimos notar por todo o conjunto de valores que nos foram embutidos pela cultura, família, religião, convívio, educação, etc. Dessa forma, carregamos uma bagagem cultural, socialmente construída, e assim atribuímos significados e valores aos objetos com os quais entramos em contato cotidianamente. É com base nessa bagagem que classificamos alguma coisa como sendo boa ou má (nossa ética), bela ou feia (senso estético), como verdadeira ou falsa (epistemologia). Nossa percepção da realidade e as reações que temos diante da vida são, portanto, bastante afetadas pela nossa visão de mundo.
Em outras palavras, nossa prática vai refletir necessariamente os nossos pressupostos. Não há como fugir deles! A busca pela imparcialidade/neutralidade absoluta já se mostrou como uma pretensão ilusória. O missiólogo presbiteriano Cássio Silva, por exemplo, afirma que “mesmo no meio científico, já é consenso a impossibilidade de uma epoché total. A total neutralidade na pesquisa científica é uma falácia. É impossível uma total suspensão de juízo”[1]. É interessante a discussão levantada pelo autor. Ele utiliza, o termo “epoché”, da Fenomenologia da Religião, para denotar a suspensão de juízo (ou dos pressupostos), que um missionário deve tentar obter em seus primeiros contatos com o povo que deseja alcançar. Esta tentativa tem por objetivo entender as manifestações religiosas daquela cultura, do ponto de vista do homem religioso, isto é, daquele que vive a experiência, evitando assim conclusões errôneas ou precipitadas acerca dos fenômenos observados. O esforço é válido e deve ser buscado, porém, o exercício de se colocar no lugar do outro fica no campo da tentativa, pois o máximo que se consegue é uma neutralidade parcial.
De fato, os pressupostos que temos determinam nossas percepções, ações e reações. Um bom exemplo disso pode ser encontrado na Idade Média. O pensamento católico medieval era essencialmente dicotômico. Assim, o homem medieval concebia o mundo em categorias de valor distinto, tais como sagrado e profano, espiritual e secular, etc. Essa concepção dividia a Igreja em duas categorias de crentes: o clero, composto pelos ministros ordenados, homens e mulheres que se dedicavam a atividades “espirituais” como oração e contemplação, e os leigos, que viviam suas vidas ordinárias, tinham suas profissões seculares nas mais diversas áreas, portadores de menor santidade e importância espiritual, desprovidos de qualquer status religioso. Os cristãos foram, assim, rotulados como ecclesia docens (a igreja que ensina) e ecclesia audiens (a igreja que aprende)[2]. Tal visão de mundo acerca da natureza da Igreja , naturalmente, foi determinante nas atitudes dos cristãos daquela época. A prática missionária no período medieval, por exemplo, esteve quase que restrita aos monges, enquanto que a grande massa de cristãos “leigos” permaneceu passiva sem se envolver em missões. Os Guinness denominou este fenômeno de “efeito relaxante”, pois “reservava o caminho radical para os especialistas (aristocratas da alma) e deixava todos os demais livres de cumprir sua responsabilidade”[3].
Os exemplos se multiplicam. Basta observar o contraste entre a colonização da América do Norte e a colonização portuguesa no Brasil. Enquanto o primeiro modelo de colonização, alicerçado na teologia protestante, pretendia povoar a terra, transformando-a numa habitação segura garantindo as liberdades individuais (visão que levou ao desenvolvimento dos Estados Unidos em vários âmbitos), o segundo modelo, em parceria íntima com o catolicismo romano, propunha apenas a exploração da colônia. Os portugueses, por isso, não procuraram desenvolver de forma duradoura a colônia, garantindo a liberdade e o bem estar dos colonos, mas apenas explorar os seus recursos e impor a cultura dominante.
“O modo como vemos o mundo pode mudar o mundo”. De fato, se entendermos que, como criaturas de Deus (e Seus filhos), nosso papel é viver para a glória dEle em TUDO, em todos os âmbitos e áreas da vida, compreendendo nosso chamado de forma holística (sem departamentalizar a vida), poderemos nos lançar em amor e serviço, a Deus e ao próximo. É preciso fazer eco a Abraham Kuyper, para o qual toda polegada quadrada de toda a criação pertence a Cristo! Precisamos apreender a realidade tendo em nós as lentes da Bíblia, devemos começar por ela toda nossa argumentação e leitura do mundo. Tal como afirma o apóstolo Paulo: “Portanto, quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus” (1 Co 10:31).
Por: Bruno Anselmo
[1] SILVA, Cácio. Compreendendo as idéias religiosas a partir de suas manifestações. Disponível em:
< http://instituto.antropos.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=549&Itemid=73 >. Acesso em: 22 out. 2010.
[2] ENGEN, Charles van. Povo Missionário, Povo de Deus. São Paulo: Vida Nova, 1996. p.133.
[3] GUINNESS, O. O Chamado. São Paulo: Cultura Cristã, 2001, p.41.
